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04/03/2015 – Desempenho é igual ao vivo ou a distância.

Trabalhar em equipe significa, cada vez mais, se comunicar e interagir virtualmente – muitas vezes com pessoas que você nunca conheceu ao vivo. Em várias empresas, encontrar o colega de trabalho pessoalmente para uma reunião ou conversa já tem até um nome específico: "face to face". Diariamente são os e-mails, comunicadores internos, telefonemas, videoconferências e até mensagens por Whatsapp que permitem que o trabalho seja realizado.

Quando reuniões são marcadas na empresa de tecnologia Dell, por exemplo, não há a expectativa de uma mesa ser fisicamente preenchida com os funcionários – mesmo que uma sala tenha sido destinada para isso. "Todos já sabem que você pode entrar na reunião por telefone ou vídeo", diz Luis Gonçalves, presidente da Dell Brasil. "Não é relevante nem informar de onde você está falando. Esse é o normal hoje na empresa", diz.

Um novo estudo de professores americanos buscou avaliar a eficácia do trabalho em equipe organizado a distância, na comparação com o pessoal. A conclusão foi que até mesmo a comunicação virtual escrita tem a mesma capacidade de gerar inteligência coletiva entre os participantes do que interações ao vivo. Desenvolvida pelo Centro de Inteligência Coletiva do Massachusetts Institute of Technology (MIT), a pesquisa avaliou se grupos que interagem apenas por mensagens de texto conseguem "ler" o comportamento dos outros participantes com a mesma eficácia que em situações presenciais.

Para o experimento, cerca de 270 pessoas foram divididas em grupos que tiveram que completar tarefas – uma parte só se comunicou por meio de um sistema on-line de mensagens instantâneas, enquanto a outra pôde conversar ao vivo. Os resultados mostraram que ambos os grupos foram igualmente capazes de medir a "sensibilidade social" dos outros participantes, o que gera inteligência coletiva. "Essa percepção é crucial para conseguir um bom desempenho de equipe, independentemente da forma de comunicação", diz David Engel, professor da Sloan School of Management, do MIT, e um dos autores do estudo.

Espalhada por quatro países da América Latina, a equipe de 12 pessoas de Elisabete Murata, diretora de educação profissional da Johnson & Johnson Medical, se encontra apenas uma vez por ano, para reuniões de planejamento. Para driblar a distância, eles são adeptos do que a executiva chama de "perseguição virtual". Isso significa usar todas as ferramentas disponíveis para encontrar os colegas durante o trabalho, desde o telefone e o comunicador interno da empresa até o aplicativo de mensagens Whatsapp. A equipe, responsável por formular o currículo de cursos oferecidos para mais de 12 mil médicos, também tem muito contato com os profissionais da saúde – que são grandes adeptos das mensagens de texto, por conta da agenda lotada.

"No virtual, conseguimos ter objetivos e processos mais claros", diz. Elisabete, porém, reconhece que o contato pessoal é insubstituível e aproveita os momentos juntos, como em viagens, para construir a confiança do time. Quando começa o contato com alguém que não conhece, ela procura marcar uma conversa por vídeo, e diz ter desenvolvido uma flexibilidade maior de horário para responder e atender os subordinados dispersos em fusos diferentes.

Outro complicador é o idioma. Elisabete diz que suas reuniões costumam ser trilíngues, começando em inglês e migrando para o espanhol e o português. "Como a estrutura é regional e a maior parte do trabalho acontece a distância, costumamos dizer que somos ′gerentes de alinhamento′ e trabalhamos para garantir que todos tenham as mesmas informações", diz.

Para a coach executiva Eva Hirsch Pontes, é muito mais fácil formar vínculos pessoalmente, pois há no contato físico uma possibilidade maior de ler o comportamento do outro. "Isso não inviabiliza criar relações a distância, mas requer mais atenção", diz. Em sua opinião, mesmo salas de telepresença – que permitem que funcionários se comuniquem por vídeo em tamanho real – fazem a diferença, pois permitem a leitura da linguagem não verbal. "Fica mais fácil negociar quando se entende a dinâmica do grupo."

Outro cuidado que ela considera importante é garantir sua visibilidade perante os superiores, que muitas vezes estão em outros países, para não ser prejudicado na carreira. Uma pesquisa da Dell com 5 mil pessoas de 12 países identificou que essa é a preocupação de 20% dos profissionais que trabalham mais da metade do tempo de casa.

João Bortone, diretor de marketing da divisão de soluções empresariais da Dell para a América Latina há pouco mais de três anos, lidera atualmente uma equipe de 35 pessoas espalhadas entre a região e os EUA. Ele conta que sua rotina mudou muito em relação ao emprego anterior, quando havia contato pessoal diário com os funcionários. "Você podia encontrar pessoas no corredor e resolver coisas muito rapidamente", ressalta.

Mas esse é apenas um ajuste, cada vez mais fácil de ser realizado. "Hoje, mesmo as relações com amigos e familiares são feitas em grande parte por Facebook e Whatsapp". Ainda assim, ele diz que é importante olhar nos olhos das pessoas, algo que faz durante viagens e na conferência anual que reúne toda a equipe. Para Bortone, um fator essencial para o sucesso desse tipo de trabalho é a cultura da organização. "Na comparação, o contato com a minha equipe é até melhor hoje, mas porque a empresa propicia ferramentas e todos entendem a cultura", diz.

As pesquisas conduzidas pelo MIT avaliaram não apenas pessoas com formações, idades e experiências diferentes, mas também de diversas nacionalidades. Segundo o professor Engel, isso significa que aspectos culturais não têm impacto significativo nos resultados.

Embora a maioria dos profissionais concorde que os latinos valorizam bastante o contato pessoal, Luis Gonçalves, presidente da Dell, diz que a sociabilidade do brasileiro se transfere também para a comunicação virtual. "O Brasil é um dos maiores adeptos de redes sociais no mundo. Isso mostra que somos capazes de lidar muito bem com isso". Quanto à questão da idade, ele percebe entre os mais velhos um ceticismo maior para adotar esse novo modo de trabalhar. "Os mais jovens têm a expectativa de que a flexibilidade e a tecnologia serão fato consumado", afirma.

Nem é preciso ter colaboradores em diferentes países para que as tarefas sejam feitas predominantemente a distância, já que oferecer opções de home office é uma tendência cada vez mais forte entre as empresas. A Basf, por exemplo, começou neste ano um programa que permite aos funcionários trabalharem fora da empresa até todos os dias da semana, se forem elegíveis. "Nossa motivação foram as condições de vida em grandes metrópoles e o fato de profissionais buscarem cada vez mais companhias com essa possibilidade", diz Thomas Reineke, vice-presidente de recursos humanos para a AL. Atualmente, também faz parte da estratégia de TI da multinacional consolidar várias ferramentas de comunicação em um mesmo programa.

Anderson Bonaldi fez parte da primeira experiência que a Basf teve com o home office em 1996, quando morava em Curitiba e trabalhava na equipe de vendas. Agora, como diretor de "coating", uma espécie de revestimento, boa parte da sua equipe de 15 pessoas já atua a distância, em horário próprio de visitas a clientes.

Uma parte importante do trabalho, no entanto, é a interação entre os integrantes da equipe, que trocam informações sobre produtos e compradores. "Essa troca é muito natural e positiva", diz. Embora aconteça de forma constante, Bonaldi considera que esse processo se torna mais forte com a reunião presencial entre todos os vendedores, que ele promove pelo menos uma vez por mês. "Se ficarmos só no virtual, algo da cultura da empresa pode se perder."

De acordo com o executivo, não existe diferença na relação da equipe que passa a maior parte do tempo fora com o resto da área que trabalha no escritório. "A gestão é por resultados, sem distinção". No ano passado, todos os funcionários fizeram parte do piloto do programa de home office e adotaram o trabalho remoto em um dia da semana. "Não houve queda na entrega, e sim um aumento na energia do grupo nos outros dias", diz.

 

Fonte: Valor Econômico, por Letícia Arcoverde, 04.03.2015

 
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