17/08/2015 – Maomé e a distante montanha. (17/08/2015)
17/08/2015 09:00
ANTP| ANTP
Newsletter Mobilidade e Conjuntura Nº 107
|
Maomé e a distante montanha |
|
|
|
Recentemente, assistindo a uma série de TV norte-americana ambientada nos anos 1950, me impressionou a distância que nos separa daquele mundo de pessoas fumando sem parar e dirigindo a toda velocidade, com crianças pulando no porta-malas do carro e motoristas com uma cervejinha na mão… (Raquel Rolnik) Duas matérias neste domingo mostram realidades diferentes para quem precisa se locomover nas grandes cidades. Principalmente pessoas que moram distante do emprego. A primeira delas, do jornal O Globo, descreve o calvário diário de 670 mil pessoas que embarcam em uma das 102 estações da Supervia na região metropolitana do Rio de Janeiro (Violência, descaso e desconforto no caminho de quem utiliza os trens do Rio). É gente que enfrenta realidade diametralmente oposta a daqueles que já conseguiram adentrar o ainda restrito mundo do teletrabalho, descrito na segunda matéria (Prática de home office é tendência no País), do jornal Diário do Grande ABC. Estes conseguiram se libertar de uma rotina estressante, em que as más condições de transporte são, na maioria das vezes, o lado mais pesado. Os demais, ao que tudo indica, ainda terão de sofrer muito até que a oferta (e a qualidade) do transporte seja no mínimo suficiente. Enquanto o teletrabalho engatinha no país – "comparado a países europeus ainda estamos atrasados” –, as melhorias de condições para quem depende de transporte público parecem surgir lentas demais diante da urgência do problema. Ana Carolina Rezende, que comparou as realidades brasileira e europeia no mercado de trabalho, atua numa empresa que encomendou pesquisa sobre o atual status do teletrabalho no país. A pesquisa informa que "das empresas entrevistadas em todo Brasil, 36% fazem uso do home Office”. Detalhe: a maioria (73%) está concentrada em São Paulo. Já é possível quantificar quantas pessoas já conseguem trabalhar em casa. De acordo com o presidente da Sobratt (Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades), Álvaro Melo, há uma estimativa de que 12 milhões de brasileiros nestas condições. Mais: o teletrabalho tem potencial de redução de 10 a 20% dos deslocamentos corporativos motorizados, conforme estudos da Sobratt. São números que crescendo permitirão melhorias visíveis, como a diminuição de congestionamentos, o que reduzirá de modo significativo os fatores de emissão de poluentes e de consumo de combustível da frota remanescente em circulação. Com o aumento da fluidez e consequente aumento da velocidade média do tráfego (menos carros nas ruas e menos trânsito), sobrará mais ruas para que os ônibus também desenvolvam maior velocidade, reforçando mais ainda os benefícios citados. Como afirma Olimpio Alvares, da Comissão de Meio Ambiente da ANTP e Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Sobratt, "o não-transporte é, óbvia e simplesmente, um dos modos mais sustentáveis de transporte, ao lado da bicicleta e do andar a pé. Nos EUA há leis, federal e estaduais, desde os anos 90, obrigando as empresas públicas a adotarem o Teletrabalho onde e quando possível, objetivando a redução da milhagem corporativa do transporte individual motorizado”. Não há dados ainda para imaginar quantas pessoas que dependem do transporte coletivo poderiam aderir ao teletrabalho. O que já se sabe é que não há por hora determinação e vontade, seja pública ou privada, que coloque este tema na ordem do dia. Morar longe do trabalho, uma das piores consequências do crescimento desordenado e atabalhoado de nossas cidades, é uma situação sem remédio aparente, pelo menos no médio prazo. Caberiam duas ações complementares, que assusta não terem ainda sido adotadas, nem estimuladas, com força e visibilidade: o estímulo governamental à migração de áreas de empregos para a periferia e a adoção do teletrabalho de forma intensiva. Enquanto as cidades continuam crescendo ao sabor da especulação imobiliária, só resta aos sofredores diários a resignação. Neste caso, contrariando o provérbio, Maomé terá sempre de ir à montanha. A montanha, do jeito que vai, tão cedo não virá a Maomé. |



