02/03/2016 – Ruas com menos carros e mais pessoas (02/03/2016)
Cars were never necessary in cities, and in many respects they worked against the fundamental purpose of cities: to bring many people together in a space where social, cultural and economic synergies could develop. (J.H.Crawford)
Em ano eleitoral é comum ver candidatos trocando o certo – o que seria melhor para a cidade -, pelo duvidoso – agradar parte do eleitorado, mesmo que em detrimento da melhoria da qualidade de vida das cidades. A prática faz parte da política, cabendo ao eleitor, ao melhorar seu poder de escolha e pressão, encurtar a distância que permite a muitos candidatos se beneficiarem do oportunismo eleitoral.
O grande debate que se estabelecerá nas principais cidades brasileiras terá o uso do automóvel no centro da arena. Temas que variam desde inspeção veicular, redução de velocidade, restrição de espaços em prol de outros modos limpos e sustentáveis, até a ocupação de espaços antes reservados exclusivamente aos carros para o lazer da população, todos estes temas, sem exceção, terão como foco a pergunta: é possível reduzir o uso do automóvel nas cidades?
O jornal O Globo desta semana, com a sugestiva manchete "Automóvel não entra", reporta um artigo publicado no jornal Washington Post, intitulado "The car century was a mistake. It's time to move on" – o século do carro foi um equívoco, é hora de seguir adiante. Publicado em 29 de fevereiro, o artigo do jornal americano reporta as ideias de J. H. Crawford, autor do livro "Carfree Cities", que imagina como seriam as cidades sem os carros e os problemas por eles causados.
Até aí nada de novo. O que o autor apregoa já é bastante conhecido por todos, de que as nações industrializadas cometeram um imenso erro ao escolher o automóvel como forma de mobilidade urbana. As deseconomias produzidas pela escolha do automóvel como principal meio de transporte para uma expressiva minoria causou diversos problemas a todos os habitantes das cidades, tanto ambientais, sociais, quanto estéticos.
Mas o que pareceria até outro dia uma romântica utopia, hoje começa a preocupar seriamente as grandes montadoras: restringir o uso de automóveis em núcleos urbanos tem sido uma tendência mundial. "Prefeituras impõem taxas e rodízios para os motoristas e há projetos radicais como o de Oslo, que anunciou o banimento de todos os carros particulares das ruas do centro até 2019", afirma a matéria do Globo.
O busílis está em produzir alternativas viáveis para que a população opte pelo transporte público, como afirma Paulo Cezar Ribeiro, professor de engenharia de transportes da Coppe/ UFRJ, citado na matéria do Globo. "As frotas mundiais crescem. Na Itália são 600 carros para cada mil habitantes. Na Alemanha são 550 por mil. Se não restringir, sai de controle", diz Paulo Cezar.
A matéria do Globo traz o exemplo de cidades que estão avançando na restrição ao automóvel, seja por questões ambientais, seja por outras questões. A matéria cita os casos da capital norueguesa Oslo, Helsinque, Madri (onde no começo do ano quatro bairros no coração da capital da Espanha foram praticamente fechados ao tráfego de carros particulares), a alemã Freiburg (com 200 mil habitantes), Hamburgo (a segunda cidade da Alemanha, com 1,7 milhões de habitantes), Copenhague, Londres (onde a partir de 2020 os bairros centrais serão transformados numa Ultra Low Emission Zone), Dublin (onde já se fala em proibir a circulação de qualquer carro em diversas ruas do centro), Milão (que sofre com os seguidos problemas da poluição), Paris e Chengdu (China).
Em resumo: o que já é uma tendência mundial, algo que já pode ser visto como inexorável, esbarra nas cidades brasileiras em duas grandes questões: de um lado o populismo eleitoral, que ainda investe no reinado do automóvel como o principal dono dos espaços públicos; e de outro a incapacidade dos gestores públicos e dos legisladores em produzir receitas para a ampliação da oferta de um transporte público urbano com qualidade e conforto.
Um ano de eleição oferece um momento especial para amplificar a importância de políticas públicas que produzam cidades melhores. Os exemplos estão aí para quem quiser ver e investir.
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