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29/10/2019 – TELETRABALHO como ferramenta de contribuição para a questão da Mobilidade Urbana e também para Gestão do Tempo do Trabalhador (29/10/2019)

 29/10/2019

Coluna Atualidades Trabalhistas / Coordenador Ricardo Calcini

Todos os estudos sobre o teletrabalhador incluem a exposição das vantagens e desvantagens do teletrabalho. Aqui, queremos trazer os elementos do debate de volta a uma perspectiva que leve os prós e os contras como elementos a serem avaliados para uma interpretação correta do que essa maneira inovadora de trabalhar deve ter, para que sua aplicação não seja aceita criticamente como uma panaceia do universo do trabalho, nem acriticamente rejeitado com base em julgamentos comuns da cultura corporativa e social.

O primeiro benefício econômico imediato e declarado decorrente das empresas que aplicam o teletrabalho está obviamente ligado ao menor uso das instalações da empresa, à economia do espaço e, portanto, dos aluguéis, com consequente economia nos custos de equipamentos e escritório e custos operacionais.

A menor necessidade de espaço centralizado para escritórios e laboratórios, associada à redução do número de trabalhadores presentes no escritório principal, permite uma diminuição dos custos a qualquer título que a empresa usufrua dos locais, seja aluguel, aquisição ou leasing, sendo certo que a economia será tanto mais relevante se no edifício utilizado estão concentrados em área urbana e principalmente em centros metropolitanos, onde os preços do mercado imobiliário resultam em contínua e vertiginosa ascensão.

À economia ligada estreitamente à utilização da superfície da empresa, acrescenta-se à relativa ao equipamento dos locais, operados, portanto, com os custos dos postos de serviço, bem como a redução de custos relacionados aos serviços colaterais da empresa e os vários tipos de benefícios, todos diretamente ligados à permanência contínua dos trabalhadores num local determinado e centralizado (como lanchonetes, estacionamentos, creches etc.). A economia geral alcançada é, portanto, muito alta se todos os itens mencionados forem levados em consideração; mas, neste caso, também deverá ser reduzido se a empresa precisar fornecer o equipamento de instalações descentralizadas.

Os custos adicionais a serem suportados em termos econômicos, e também organizacionais, contemplam, igualmente, em algumas experiências, a necessidade de movimentos frequentes e maciços de material de papel, se ainda não tiver sido completamente substituído por suportes de computador ou se, de fato, não é substituível.

No que diz respeito ao mercado, no entanto, as empresas que realizam operações de teletrabalho devem superar um obstáculo adicional, a saber, o medo expresso ou realisticamente concebível por parte de algumas empresas clientes em relação à confidencialidade que desejam manter em seus dados. Essa confidencialidade na imagem ainda obscura do teletrabalho é frequentemente considerada comprometida pelo uso de um consultor à distância, especialmente se eles operam em casa, substituindo os consultores que visitam o local do cliente. Medos de tal tipo, que embora possam ser dissipados com medidas técnicas adequadas e medidas regulatórias paralelas, ainda são um obstáculo para as empresas que desejam implementar formas de teletrabalho em atividades realizadas para clientes externos, como é o caso na maioria das empresas de consultoria de informática.

Muitas funções envolvem agentes que saem de seus escritórios para conhecer, controlar, aconselhar indivíduos ou empresas. Essas situações tradicionais foram modificadas pelo surgimento das TIC no universo administrativo. Os agentes agora têm laptops, geralmente com acesso à Internet na rede de sua administração, um telefone celular.

Outro aspecto fundamental que o teletrabalho é protagonista na amenização diz respeito ao problema da mobilidade urbana nos grandes centros. Não é a distância, o percurso da casa para o trabalho propriamente dito a razão para o teletrabalho, mas o tempo que se perde no deslocamento. Deslocamentos de trabalho que, ao longo do tempo, são cada vez mais realizados em horas intransitáveis e que, devido à experiência adquirida hoje no teletrabalho, parecem a essas novas populações ativas como parcialmente inúteis. O tempo que se passa nos engarrafamentos é sinônimo de uma perda de tempo útil, um tempo de trabalho completamente perdido, que acaba causando um estresse reforçado por um tráfego cada vez mais inseguro, devido a assaltos, desrespeito às regras de trânsito, principalmente quanto aos limites de velocidade, preferências de passagem nos cruzamentos e utilização de bebida alcoólica.

A ONG americana Social Progress Imperative mantém um ranking da qualidade de vida em 132 países, o Índice de Progresso Social. Entre os principais aspectos analisados, está a segurança pessoal, em que o Brasil aparece como o 11° país mais inseguro do mundo.

Para avaliar o nível de segurança de cada país, cinco critérios foram examinados: número de homicídios, de crimes violentos, percepção da criminalidade, terrorismo e mortes no trânsito. Em uma escala de 0 a 100, com 0 para a máxima insegurança, o Brasil recebeu 37,5 pontos. Como país mais inseguro do mundo, aparece o Iraque, com 21,5 pontos. Do outro lado do ranking, como país mais seguro, aparece a Islândia, com 93,4 pontos (FUENTES, 2017)[1].

Há frequentes protestos no Brasil provocados pela qualidade dos serviços públicos e pelo aumento do valor do transporte, que leva as pessoas às ruas, o que torna o tema da mobilidade urbana uma prioridade política e revela uma crise do setor. Crise que existe há muito tempo. Cidades menores estão gradualmente se adicionando a esses movimentos e isso está resultando em uma deterioração da mobilidade urbana. O transporte público, caro e de má qualidade, leva a um processo de exclusão social que se reflete no desenvolvimento das cidades, tornando-as menos atraentes para os investidores devido à redução gradual da mobilidade.

Assim, além de questionar algumas das formas limitadoras dos deslocamentos a trabalho, o teletrabalhador visaria, no estágio atual de sua experiência, também a questionar a cronologia de suas jornadas. Além das possibilidades de flexibilidade espacial entre seus vários locais de teletrabalho em potencial, o teletrabalhador também pode ter meios de escapar de uma parte da compartimentalização tradicional entre seu tempo pessoal e seu tempo de trabalho.

Hoje, o teletrabalhador busca uma administração mais autônoma de seu tempo de trabalho para liberar intervalos de tempo em sua semana ou em seu dia útil, quando é necessário ou simplesmente preferível para ele e sua família. Existe uma demanda por tempos de ocupação laboral escalonados para assim facilitar a intersecção desses tempos sociais entre si, em consequência de uma gestão combinada dos locais de trabalho e dos tempos de trabalho.

Esses novos modos de organização do trabalho podem ajudar as pessoas a encontrarem novas formas alternativas de deslocamento profissional, porque, dependendo da função exercida na empresa, os deslocamentos dos teletrabalhadores entre seus diversos locais de trabalho continuarão a existir. Só vão ser diferentes. Vão diferir primeiramente em razão do número de locais de trabalho onde as pessoas deverão estar pessoalmente para cumprir certas missões ou, ainda, que elas se coloquem à disposição voluntariamente. Diferem também em razão do número de horas de trabalho prestadas nesses diversos locais e da frequência de renovação entre esses locais.

No dia a dia, vários objetivos profissionais moldam o uso da(s) forma(s) de teletrabalho em certos horários determinados. Por exemplo: precisar lidar pessoalmente com os clientes, reuniões semanais com o gerente da equipe, reuniões com colegas ou uma tarefa que exige concentração[2].

É preciso valorizar a forma móvel ou multilocalizada de teletrabalho, uma forma que os próprios teletrabalhadores buscam praticar e que também desejam generalizar em termos de tempo total de trabalho semanal. Cada forma ou prática do teletrabalho oferece vantagens específicas aos teletrabalhadores. Todas essas formas e práticas exercidas em sua diversidade acumulam benefícios ainda mais numerosos, pois sua complementaridade de uso reduz as desvantagens associadas a cada uma delas. Certamente, muitos pontos de vista diferentes são expressos a esse respeito, dentre os quais se encontram elementos subjetivos. Mas o mesmo perfil de teletrabalhador pode levar à implantação de diferentes combinações de formas de teletrabalho praticadas durante o dia ou a semana de trabalho.

A possibilidade de se deslocar em horários diferentes durante o dia de trabalho, tanto no sentido de ir quanto no de vir, libera um período considerável de tempo para todos os perfis de teletrabalhadores. Reduz o tempo realmente gasto nesse tipo de deslocamento profissional que, ao longo do tempo não parou de crescer devido à intensificação geral do tráfego. Ao mesmo tempo, elimina o estresse associado a problemas de trânsito e estacionamento. Para esses teletrabalhadores, com essa experiência nessa nova forma de organização do trabalho, esse é um trabalho para o qual é preciso realmente ter aptidão. Mas o que se observa no dia a dia é que esse desperdício de tempo é cada vez menos bem suportado por pessoas ativas que o consideram muito prejudicial à qualidade de vida.

Em breves linhas, então, afirma-se que o teletrabalho mais do que uma realidade é um mecanismo disruptivo e que atende muito bem determinados perfis de trabalhadores, além de anseios das companhias, caracterizando um verdadeiro sistema ganha-ganha na relação de emprego guiado, é claro, pelas definições precisas de todo seu contorno preferencialmente pela negociação coletiva.

 

Notas e Referências

[1] FUENTES, André. REVISTA VEJA. Índice aponta Brasil como 11º país mais inseguro do mundo. Notícia, 14fev2017. Disponível em: https://veja.abril.com.br/blog/impavido-colosso/indice-aponta-brasil-como-11-pais-mais-inseguro-do-mundo/. Acesso em: 25ago2019.

[2] Resulta interesante analizar cómo funciona nuestro cerebro a la hora de trabajar, teniendo la certeza de que resulta prácticamente imposible mantener nuestra concentración activa durante las ocho horas diarias que integran una jornada laboral pues la concentración es un recurso limitado, y las actividades como el análisis, la priorización, la planificación, y otros tipos de pensamiento crítico consumen grandes cantidades de energía, que es obtenida por el cerebro a través de la glucosa y el oxígeno. Díaz, Viviana Laura (Teletrabajo y neurotecnología – una guía imprescindible para gestionar el Trabajo 4.0).

 

Imagem Ilustrativa do Post: Lady Justice // Foto de: Dun.can // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/duncanh1/23620669668/

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