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13/11/2017 – Um admirável Espaço Novo (13/11/2017)

O texto abaixo foi escrito por Ricardo Semler quando ele lançou o “trabalho remoto” no Grupo Semco, no ano 2000 e lido por Clovis Bojikian, na cerimônia da SOBRATT no CRA-SP, na qual foram entregues os Certificados aos Homenageados pelos 20 anos do Teletrabalho no Brasil.

 

Nestes dias vamos inaugurar um novo espaço de trabalho na Semco. À primeira vista, pode parecer um escritório virtual, que é caracterizado por:

1.    Falta de escritórios fechados, ou designados a uma pessoa em particular.

2.    Uso múltiplo de um mesmo posto de trabalho, para dar conta do fato de que muitas pessoas usam a mesa do escritório apenas uma parte do dia, ou da semana.

3.    Tentativa de conter custos, evitando espaços pouco utilizados (cabe muito mais gente num espaço virtual, se somarmos o número efetivo de horas de uso das mesas).

Muitas destas características são desejáveis, mas não são o foco principal desta inovação que está para ser concebida na Semco. Estamos querendo, também, as seguintes condições:

1.    Eliminar, aos poucos, a hierarquia física, abolindo o poder via símbolos, espaços e mordomias, restando aos cargos de liderança apenas a conquista do respeito real dos seus liderados por meio da competência e capacidade de aglutinação.

2.    Diminuir ou eliminar a capacidade de controle sobre as pessoas. Não havendo controle visual ou físico, as pessoas passam a ser responsabilizáveis apenas pelo resultado, e não pelo horário, roupa, modo de agir, ou método de trabalho.

3.    Diminuição substancial da perda de tempo em trânsito, e redução importante do stress de horário, do monitoramento corporativo, e da falta de liberdade de organizar a vida familiar.

4.    Independência crescente, onde um notebook, dados remotos e auto-disciplina tomem o lugar de rotinas cansativas, irritantes e pouco inteligentes.

Hoje apenas pessoas de cargos mais altos ou de funções independentes têm um pouco destes privilégios na Semco. Queremos que isto se estenda a mais pessoas, até atingir a quase totalidade. Mesmo os que não podem, por função, estar longe de um posto fixo de trabalho precisam ter mais liberdade do que têm hoje.

Tudo isto é muito mais difícil de implantar do que pregar. E o obstáculo principal está dentro das cabeças das pessoas.

As pessoas se seduzirão com a idéia de programar seus horários com flexibilidade, dar menos satisfação sobre o jeito de fazer as coisas, e gozar da liberdade que um movimento mais livre proporciona.

Por outro lado, sentirão insegurança por não ter um território personalizado, duvidarão que uma mudança de horário não acarrete alguma censura pelos líderes, e se sentirão um pouco órfãos ao não ter um lugar onde o porta retrato dos filhos simbolize a posse de um lugar ao sol na empresa.

Mas as pessoas sabem que a empresa pode ser fria e calculista, e uma mesa bonita com um lugar na janela pode ser trocada por uma homologação trabalhista, num piscar de olhos, e por isso é ilusória a sensação de segurança. Esta só pode vir de uma composição feliz entre missões bem cumpridas, por pessoas felizes no que fazem – e isto, em nada, depende de onde sentam.

O que estamos querendo iniciar é uma filosofia – que bata com o que a Semco vem tentando implantar há 21 anos: a de levar ao limite a independência, autonomia e capacidade de realização de cada uma de nossas pessoas.

A tecnologia demorou para nos ajudar. Mas agora está disponível. E queremos que este novo espaço seja o primeiro de uma configuração nova de quase toda a Semco. Onde as pessoas percebam que queremos contratar a sabedoria, talento e interesse de cada um, e não um jeito de vestir e falar, uma hora de chegar, e uma atitude conformista.

E este espaço novo simboliza isto. Eu, por exemplo, pretendo usá-lo como única opção quando vier à Semco – que faço pouco, pois só apareço quando preciso (e o mesmo deveria ser verdade da maioria).

Também o Violi, Clovis, Vendramim e praticamente todos os que exercem cargos de liderança na Semco se comprometeram a abrir mão de seus espaços exclusivos, para inaugurar esta nova fase demonstrando desde já que não é de salas, vagas de estacionamento e secretárias que se faz um bom líder.

Haverá muito receio, muito ceticismo e algum mal uso deste novo espaço (por exemplo, tentar usar sempre o mesmo local). Venho a vocês para fazer um pedido de voto de confiança: que usemos este espaço como experimento comprometido. Para isto, e para não fazer isto de cima para baixo, estamos promovendo uma série de pequenos encontros, para ouvir todos sobre a melhor maneira de usar estes espaços (dentro do conceito acima, ou então adaptado pelo que as pessoas realmente querem).

Todas as mudanças que fizemos na Semco procuraram envolver as pessoas e ouvir a todos, mas é claro, sempre tiveram um grau de autoritarismo. Isto por duas razões: uma, que todos nós temos um condicionamento autoritário razoável, e ninguém conhece uma sequer empresa democrática no mundo, o que é uma pena e um atraso de vida. A segunda razão é que um pulo na maneira de pensar nunca acontece naturalmente. Em termos antropológicos, o ser humano muda muito pouco, e muito devagar, e os grupos (tribos) se armam, fortemente, contra qualquer mudança mais radical.

Não será diferente aqui, e por isso uma forçadinha de mão sempre acontece. A nossa forçadinha virá na forma de ouvir a todos, e depois ainda tentar botar o conceito acima em vigor. Não acreditamos que este pulo conceitual seja natural ou óbvio, e por isso teremos que conviver com as reclamações e dúvidas que seguem:

A.   Meu cargo não me permite – tenho que estar aqui todo dia, na mesma hora. (Raríssimos cargos são assim, e são inúmeras as pessoas que enfrentam duas horas de trânsito, para chegarem pontualmente ao trabalho, para então mandar um e-mail para a pessoa do lado).

B.   Antes eu tinha uma mesa que era só minha, agora tenho que reservar, ou correr o risco de ficar sem. (Sim, mas agora você pode levar o filho com calma à escola na Segunda-feira, e trabalhar no Domingão à noite, com pizza na mão, melecando a tela do computador de azeite, ao invés de assistir ao Fantástico. E mais, o chefe agora não tem como saber onde você está, nem vai se interessar mais por isto, apenas vai cobrar o resultado que foi negociado entre vocês).

C.   Ah, mas eu já trabalho na Semco, de dia, e ainda no fim-de-semana em casa. (É aí que seu controle sobre o tempo e seu destino entram em vigor. Cabe a você descobrir se todos os momentos seus na Semco são produtivos, ou se existe uma forma melhor de se organizar. E, afinal de contas, você vai economizar muitas horas por semana de trânsito se usar outros horários ou trabalhar em casa durante o dia).

D.   Mas eu preciso trabalhar com outras pessoas da minha área. (Se você não é um destes que manda mail para o colega ao lado, é só combinar com uma, ou quatro ou dez pessoas, e reservar uma área para isto. Você vai descobrir que estas ocasiões são mais raras, em termos de consumo de horas, do que você achava, e que muitas destas reuniões podem ser substituídas por telefonemas em grupo, ou uso de internet colaborativa).

E.   Vou me sentir sem pai nem mãe, sem saber se estão vendo meu trabalho, um nômade perdido no Deserto do Já-era. (Ilusão, porque hoje o trabalho das pessoas já é muito controlado em termos de resultado final, e a questão física apenas ficou para trás. Ao usar este sistema novo, você descobrirá que ficar até 2a feira de manhã em Itanhaem não vai fazer diferença nenhuma  – apenas vai economizar 5 horas de trânsito, crianças chorando com queimaduras de sol e refrigerantes quentes comprados do ambulante da via expressa).

O Professor Domenico de Masi, que muitos de vocês devem conhecer como o guru da nova sociedade de trabalho (é estudioso da sociologia do trabalho há quatro décadas) constatou as seguintes coisas, por pesquisa:

·         “Agora, a maioria dos trabalhadores não lida com matérias sólidas, mas com informação imaterial. Portanto, em vez de deslocar os trabalhadores para onde estão as informações, é possível e preferível deslocar as informações para onde estão os trabalhadores”.

·         “As pesquisas sobre o teletrabalho, ou seja, o trabalho que não é realizado nos escritórios, mas na própria residência, evidenciam que as tarefas que na empresa requerem de oito a dez horas para serem realizadas, em casa se realizam, comodamente, na metade do tempo: de quatro a cinco horas, no máximo. Isto quer dizer que as pessoas passam, seja nas empresas, seja nas repartições públicas, o dobro do tempo necessário.” (E é preciso adicionar, às 8-10 horas na Semco, as 3 ou mais horas de trânsito por dia, o que compõe um cenário desumano, pouco inteligente e que, composto com o grau crescente de exigência da empresa e do mercado, uma vida muito pouco saudável).

Assim, vocês verão que o novo espaço é muito mais do que uma adaptação moderninha – é uma tentativa de libertação das pessoas. Do controle desnecessário, da ditadura do trânsito e poluição, e de um sistema pouco inteligente, que tanto compromete a vida pessoal, a criatividade, a saúde, e por consequência, a felicidade.

Para a empresa, queremos compartilhar do lucro e produtividade que vem de pessoas felizes e interessadas, sem o que nada somos.

E estamos convencidos de que estes novos escritórios, se usados desta forma nova (um ponto de apoio quando é necessário vir à empresa, a critério de cada pessoa) serão um catalisador desta nova forma de trabalhar.

Não há, ao que se saiba, outra empresa no Brasil que use escritórios totalmente não-territoriais, onde mesmo os diretores não tenham lugar garantido, e onde se incentive as pessoas a acharem seu próprio equilíbrio entre vida pessoal e profissional, ficando, novamente, responsáveis por seus destinos, e fazendo da empresa um lugar sadio para trabalhar.

Participem dos workshops, dêem idéias, reclamem quanto quiserem, mas, ao fim, lembrem-se que este é um exercício sem precedentes claros e sem regras certas ou erradas – e que vai depender totalmente do comprometimento de todos. Para, no fim, achar um jeito melhor de trabalhar.

Texto escrito no ano de 2000, por Ricardo F. Semler, para o público interno da SEMCO e para os visitantes a conhecer o novo espaço.

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