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01/12/2015 – Japão adere ao trabalho remoto (01/12/2015)

O gELEANOR WARNOCK, de Tóquio

As luzes não ficam mais acesas até tarde em alguns locais de trabalho do Japão, com mais e mais funcionários trocando a famosa longa jornada no escritório por horários mais flexíveis, smartphones e a alternativa de trabalhar de casa usando acesso remoto.

O governo japonês está incentivando a mudança, recompensando com subsídios as empresas que estão tentando criar uma cultura mais favorável ao trabalhador. O governo do primeiro-ministro Shinzo Abe prometeu elevar o número de pessoas que trabalham pelo menos um dia da semana de casa dos atuais 4% para mais de 10% do total de trabalhadores até 2020.

A iniciativa ocorre em um momento em que a força de trabalho do Japão está encolhendo. Os executivos dizem que se eles não facilitarem a vida dos funcionários — especialmente das mulheres — para sair do trabalho e cuidar dos filhos ou de pais idosos, eles correm o risco de perder funcionários valiosos.

“Eu gasto duas horas para me aprontar de manhã, mas pense sobre quanto posso produzir nessas duas horas, sem maquiagem, trabalhando no meu laptop”, diz Haruno Yoshida, diretora-superintendente da unidade japonesa do BT Group PLC e uma defensora do trabalho remoto. “Pense nas mães que trabalham. É uma necessidade para o Japão colocar essa tecnologia em vigor.”

Segundo os mais recentes dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, cerca de 22% dos japoneses trabalham 50 ou mais horas por semana, quase duas vezes a média de outros países desenvolvidos.

Mas as empresas no Japão estão adotando lentamente a tecnologia que em outros países como nos Estados Unidos transformou o trabalho remoto e o horário flexível em algo comum, principalmente devido a uma cultura que espera que o funcionário fique até tarde no local de trabalho, além de preocupações como com hackers. Entretanto, alguns representantes de sindicatos se queixam que os smartphones fornecidos pelas empresas podem levar os funcionários a se sentirem ainda mais ligados ao trabalho.

Apenas 11,5% das companhias japonesas têm um sistema de trabalho remoto em vigor, segundo estatísticas do governo, ante cerca de 50% nos EUA, de acordo com uma pesquisa.

As empresas japonesas valorizam o contato pessoal no escritório, e muitos empregados reclamam que os gestores estão mais preocupados com o quanto mais os funcionários ficam no trabalho após o expediente do que com o trabalho que eles realmente fazem.

Além disso, o ambiente do trabalho no Japão ainda depende fortemente do papel apesar da proliferação de tablets e smartphones. Até outubro, as empresas eram obrigadas pela lei japonesa a manter cópias em papel de recibos a partir de US$ 245 para fins fiscais por sete anos.

Os funcionários dizem que grandes volumes de papel dificultam a realização do trabalho fora do escritório, mesmo se tiverem um laptop.

Um relatório de 2014 da consultoria Deloitte revelou que mais smartphones, tablets e laptops no escritório poderiam dar um impulso à economia japonesa de cerca de uns US$ 15 bilhões. Embora 75% dos japoneses entre 18 e 49 anos possuam um smartphone, apenas 9% usam o aparelho para fins profissionais, segundo a Deloitte.

No distrito de Kasumigaseki, em Tóquio, onde se concentra a maioria dos ministérios japoneses e onde os burocratas debruçados sobre pilhas de papel mantêm as luzes acesas até tarde da noite, um grupo de funcionárias de nível médio do governo pediu, no ano passado, medidas que ajudassem a equilibrar o trabalho com os cuidados com os filhos.

Ikuko Shirota, que trabalha na área de contabilidade do Ministério da Fazenda, ajudou a elaborar as propostas, que incluem o trabalho remoto. Desde que o ministério começou a fornecer ferramentas aos funcionários para acesso remoto no ano passado, ela pode usar seu iPad para checar e-mails e acessar documentos armazenados em seu computador do escritório.

“Antes, houve vezes em que tive que vir ao ministério no domingo apenas para checar meu e-mail”, diz Shirota.

Algumas das mais conhecidas empresas japonesas estão na dianteira da mudança, como a fabricante de bebidas Suntory Holdings Ltd. Até 2010, o trabalho remoto era limitado e poucas dezenas de funcionários usavam o sistema. A empresa então estendeu o acesso para mais funcionários trabalharem fora do escritório em vários dias da semana e em horários flexíveis. Agora, mais de 3 mil trabalhadores já podem trabalhar remotamente.

Segundo a Suntory, o sistema pode ajudar os funcionários com compromissos familiares, mas ela também espera que isso aumente a produtividade.

Outras empresas no Japão que estão expandindo o trabalho remoto nos últimos anos incluem a Nissan Motor Co. e a fornecedora de software e sistemas de computação Nihon Unisys Ltd. Em setembro, a Unisys informou que iria permitir que todos os seus 8 mil funcionários acessassem arquivos da empresa e o e-mail a partir de seus smartphones e tablets.

Sendo detentor de algumas das mais avançadas tecnologias do mundo para fabricar carros e eletrônicos, pode parecer estranho o Japão não usar mais amplamente o trabalho remoto. Um dos motivos frequentemente citados é o temor de hackers, um problema ressaltado no ano passado quando a unidade de Hollywood da Sony Corp. viu milhares de e-mails internos serem divulgados na internet.

Yoko Murakami, diretora do departamento de condições de trabalho da maior organização de sindicatos, conhecida como Rengo, está entre as céticas de que essa experiência será positiva para os trabalhadores japoneses.

“Será muito difícil administrar as horas de trabalho”, diz. Segundo ela, com o trabalho remoto não há como garantir o encerramento da jornada.

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